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Caderno do Caminho

Editorial

Eu queria poder fazer o tempo voltar

Nos últimos dias, tenho refletido sobre os meus erros e más escolhas ao longo da vida, principalmente aqueles ligados a relacionamentos. Lembrei das vezes em que decepcionei meus amigos do ensino médio, quando eles me avisavam sobre algumas más companhias, mas eu não dava ouvidos. Também recordei das vezes em que briguei com amigos fiéis por conta de coisas banais. Vieram-me à memória as vezes em que machuquei pessoas íntimas por conta de uma língua tola. Quanto mais jovem e insensato sou, mais eu decepciono (por menos) aqueles que eu amo.

Ao mesmo tempo em que relembrava desses momentos tristes e evitáveis, estava com uma fixação por uma música que tem tudo a ver. A música “Komm, süsser Tod” (“Venha, querida morte”, em português), do filme “The End of Evangelion”, não saía da minha mente. É uma música que descreve os sentimentos e pensamentos de uma pessoa que magoou muito, por egoísmo e imaturidade, alguém que ama profundamente.

O anime Neon Genesis Evangelion, de onde vem a música, é sobre, principalmente, relacionamentos. Talvez a principal inspiração da obra seja a parábola do filósofo Arthur Schopenhauer do dilema do porco-espinho. Nessa parábola, temos porcos-espinhos sofrendo de frio em uma era glacial. Por conta disso, diversos animais começam a morrer, mas os ouriços encontram uma solução: usar o calor dos corpos uns dos outros para se aquecer.

Entretanto, como sabemos, os ouriços são animais em que não conseguimos encostar sem sentir dor e, por isso, ao ficarem muito próximos, eles sentem uma dor intensa. Por outro lado, se eles não se aproximarem, irão morrer de frio.

Essa parábola descreve perfeitamente como os relacionamentos humanos são: necessários, mas dolorosos. É bem verdade que existem pessoas que conseguem suportar melhor a solidão, mas é simplesmente impossível viver isolado da sociedade sem sofrer algum tipo de problema. Com a divisão do trabalho, somos mais produtivos do que em um cenário em que cada um deve saber fazer quase tudo, como produzir alimentos, construir casas, tecer roupas etc. Aristóteles já afirmava que o homem é um animal político.

O isolamento social severo também pode ser profundamente nocivo para a saúde mental. Estudos clássicos de René Spitz com bebês institucionalizados mostraram que crianças privadas de vínculos afetivos e de atenção individual apresentavam graves prejuízos no desenvolvimento, maior suscetibilidade a doenças e uma mortalidade muito superior à observada em outros grupos.

Tudo isso nos leva a concluir que relacionamentos são essenciais. A Trindade mostra como relacionamentos são algo básico na existência: desde a eternidade eles existem.

Contudo, como dito antes, os relacionamentos são dolorosos, especialmente para aqueles mais imaturos ou sensíveis. Essa dor tende a aumentar conforme nos tornamos mais íntimos das pessoas. O seu colega de trabalho, que não compartilha os problemas dele, certamente não dá dor de cabeça para você. Entretanto, casamentos de pessoas imaturas começam a ruir à medida que os cônjuges conhecem verdadeiramente um ao outro. É impossível manter as aparências no seu próprio lar, é simplesmente estressante demais. Então, o verdadeiro “eu” aparece: aquele homem que não gosta de conversar, aquela mulher insubmissa… A decepção é inevitável e, quanto mais conhecemos os erros dos outros e depositamos mais expectativas em alguém, mais dor sentimos.

Isso tudo em uma realidade de pecadores imperfeitos que se acham dignos de alguma honra. Agora imagine isso diante de um Deus perfeito, que é santo e digno de todo louvor e glória. Me pergunto como o nosso Senhor Jesus Cristo aguentou viver 33 anos no meio de homens como nós. Uma frase me vem à mente: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês e terei de suportá-los?” (Lucas 9:41).

Quando nos atentamos à vida de Jesus, percebemos que a sua renúncia sempre foi além da humilhação e morte na cruz. Ele comia com pecadores, andava com discípulos que eram orgulhosos e tinham uma fé vacilante, era constantemente perseguido e estava debaixo das leis humanas e divinas. Ele se submeteu a coisas que não precisava. Tudo por puro amor. Ao invés de tentar procurar uma distância em que não morresse de frio ou não sentisse a dor dos espinhos dos outros, ele se aproximou profundamente da humanidade.

Tendo em mente tal amor, o apóstolo Paulo nos ordena que sigamos o exemplo do nosso Senhor, pois o escravo não é maior que seu mestre (João 13:16) e dar é melhor que receber (Atos 20:35). O apóstolo escreve em Filipenses 2:5-8:

Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus, que, mesmo existindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo. Pelo contrário, ele se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

Portanto, não devemos chegar à conclusão que alguns chegam, que é procurar uma zona de conforto, mas sim nos aproximar, de maneira intencional, para cuidar dos outros, mesmo que isso nos faça sangrar.

Mas isso tudo não significa que não haverá decepções. Muito pelo contrário: conforme nos aproximamos, precisaremos de mais humildade e maturidade para lidar com as imperfeições, sejam as nossas ou as dos outros. A frustração é certa, basta esperar por tempo suficiente. Nós quebramos promessas, nos omitimos, falamos o que não devíamos e até traímos a confiança daqueles que nós mais amamos.

Voltando à música, ela trata exatamente sobre isso: decepções. O eu lírico se arrepende profundamente por ter perdido, por conta de seu egoísmo, a confiança daqueles que amava. Agora, ao ver as consequências do que fez, ele respeita verdadeiramente os outros e percebe que aqueles que ama valem mais do que qualquer outra coisa.

A tristeza é profunda. Seu vacilo foi tão grande que, para ele, o melhor que ele pode fazer, em sua opinião, “é acabar com tudo e ir embora para sempre”. “O que foi feito, está feito, me sinto tão mal. O que era feliz agora é triste” é dito na música. A angústia é tanta que ele jura "eu nunca mais vou amar; o meu mundo está acabando."

Então, uma solução impossível surge em meio ao seu luto na fase da barganha: ele deseja poder fazer o tempo voltar. O erro é irreparável em sua visão.

Aqueles que sabem que seus problemas têm solução empreendem uma jornada para ganhar novamente a confiança e reparar os erros feitos, mas aqueles que creem que não há uma segunda chance só podem desejar voltar no tempo ou esperar algum milagre. Por isso, como não há saída, surge o desejo de acabar com tudo e ir embora para sempre. É extremamente doloroso viver olhando para aqueles que perderam a confiança em você. A vontade é apagar tudo e começar a vida de novo, e a única forma de fazer isso não é com aqueles ao seu redor, mas em uma terra distante.

Ao refletir nessa canção e no meu passado, ambos os desejos surgiram em meu coração: eu queria tanto voltar no tempo como começar minha vida “do zero” em outro local, de preferência o mais distante possível. Aqueles que me conhecem há muito tempo sabem de meu passado e isso traz insegurança ao coração de qualquer um, pois nós nunca sabemos como os outros irão lidar com tais informações. “Será que elas vão nos perdoar?” “Elas realmente acreditam que eu mudei?” são perguntas que surgem, e o nosso coração, extremamente ansioso, começa a sucumbir diante das dúvidas. Olhamos para nossa justiça própria e vemos que nunca fomos perfeitos. Sabemos também que não vencemos completamente alguns de nossos problemas e que sempre estaremos sujeitos a errar novamente. Confiamos em nossa autossuficiência e ela nos deixa desamparados, pois ninguém é perfeito. O orgulho sempre nos deixará na mão, por isso que a humildade é a rainha das virtudes.

Mas, então, será que voltar no tempo consertaria os meus problemas? Essa pergunta me assombrou por dias e mais dias, pois não conseguia encontrar paz diante do que fiz no passado. Todos aqueles que magoei vinham à minha mente e eu não conseguia sentir nada além de aflição. A culpa me esmagava. Lembro-me de estar me arrumando para o trabalho quando, de repente, os pensamentos vinham à minha mente e eu parava o que estava fazendo para lamentar em silêncio.

A dúvida me consumia constantemente, até que um dia, enquanto dormia, tive uma resposta. Deus me trouxe à mente, através de um sonho, uma percepção. Sonhei que, em duas situações, eu voltava no tempo para “consertar” as coisas. As situações não aconteceram de fato, mas a lição ficou. Da primeira eu não me lembro, mas a segunda ficou gravada em minha mente.

Lembro-me de ver uma irmã em Cristo fictícia muito piedosa, mas que, no passado, havia roubado e perdido um objeto de que eu gostava muito. Então, tive a oportunidade de voltar ao dia em que ela roubou o objeto. Me escondi e esperei que ela furtasse e então peguei-a e levei-a às autoridades. Nem eu mesmo entendi o porquê dessa minha atitude, era como se eu fosse controlado por um outro alguém, talvez aquele fosse o meu verdadeiro eu.

Na sequência, a história mudou de curso, de tal forma que ela não se tornou a irmã piedosa que eu conhecera. Sem ela, algumas pessoas próximas a mim não foram abençoadas e eu não fui abençoado por essas pessoas. Foi um verdadeiro efeito borboleta e não fiz algumas amizades que tenho hoje. A culpa, então, me consumiu. Uma atitude pequena mudou todo o curso da história.

Não quero dizer que eu brinquei de Deus, mas, se por algum motivo ele permitisse tal coisa, a história mudaria para pior, pois minha visão é limitada e eu sou tolo. Deus vê tudo e sabe de todas as coisas. Também não estou dizendo que condenei alguém ao inferno, uma vez que somos eleitos antes da fundação do mundo. Talvez, por coisas como essas, não seja possível viajar para o passado. Quem sabe.

Mas é preciso frisar: ela não se torna inocente porque o mal dela, no futuro, se tornou bem. De fato, ela estava errada e eu estava certo ao entregá-la à polícia, em termos morais. O fato de que Deus “conserta” os nossos erros não nos isenta de nossa culpa. Os fins não justificam os meios. O ponto é que nós não somos os Senhores da história, mas Deus é. Nunca sabemos os efeitos de nossas ações, mas Deus dirige a história sem erro algum. Ele permite o mal acontecer por motivos que nós não conhecemos. O mal existe porque Deus tem uma boa justificativa, embora ela seja oculta a nós. A sabedoria de Deus é a resposta para as indagações de Jó.

Para ilustrar isso de maneira mais clara, vamos à famosa história bíblica de José. José foi vendido por seus irmãos porque eles não gostavam dele. Certamente, em meio à sua angústia na prisão, José pensou: “se eu tivesse sido menos arrogante e mais compassivo com meus irmãos, eu não estaria aqui”. Os irmãos de José, por outro lado, também devem ter lamentado profundamente a atitude deles. Talvez eles tenham pensado: “se não tivéssemos vendido José, nosso pai não teria se entristecido tanto e nós não sentiríamos culpa alguma”.

A má escolha de ambos gerou sofrimento e eles certamente se arrependeram do que fizeram. Se tivessem a oportunidade, certamente mudariam o passado e esse sentimento é nobre, pois mostra verdadeira contrição. Mas, por outro lado, o destino dos povos da região não seria nada bom: sem José como governador, anos mais tarde multidões iriam perecer de fome. Não que José fosse insubstituível, humanamente falando, ou até perfeito, mas Deus o escolheu para ser a fonte de bênção para o povo e ninguém mais.

Ninguém justifica a arrogância de José e nem a maldade de seus irmãos, mas claramente vemos o Deus soberano conduzindo um mundo caído de maneira extremamente sábia. Ele não “conserta” as coisas, mas está sempre a dirigir um veículo completamente quebrado de maneira perfeita. Isso não anula nossas responsabilidades e nem nos livra de nossos sofrimentos, mesmo daqueles que são terríveis, mas isso traz uma certeza. A certeza é justamente a confiança de que ele nos livrará das aflições no momento certo (Salmo 34:19).

“Bom e reto é o Senhor, por isso aponta o caminho aos pecadores. Guia os humildes na justiça e ensina aos mansos o seu caminho. Todas as veredas do Senhor são misericórdia e verdade para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos.” (Salmos 25:8-10)

Portanto, diante de tantas tristezas, o nosso papel não é o de reescrever a história, mas de confiar no Senhor. Confiar em seu perdão que não nos deixará perecer eternamente por nossos erros. Confiar em sua soberania, pela qual ele faz com que todas as coisas, em última instância, cooperem para nosso bem (Romanos 8). Confiar que procurar o perdão de quem ofendemos, pagar — diante dos homens — pelo que fizemos e tentar reparar nossos danos é o máximo que podemos fazer. A fuga não resolve os problemas e os remendos falsos não ajudam, mas enfrentar os problemas com coragem, apesar dos ferimentos, nos torna mais fortes. A vida do homem é uma eterna luta (Jó 7:1), então precisamos estar prontos para apanhar.

Nossos erros nos ensinam que precisamos de um salvador. Eles trazem humildade ao coração do justo e nos fazem exaltar a bondade de nosso Deus. É até chocante, mas até através das consequências de nossos pecados o nosso Deus trabalha em nós.

Graças a Deus por ele não nos permitir voltar no tempo! Obrigado, Senhor, por não deixar que brinquemos de Deus. Nossas aflições não são nada comparadas com a glória que há de vir (Romanos 8:18). Tu enxugarás de nossos olhos toda lágrima (Apocalipse 21:4).